
As Obras
Série: É Preciso Sacrificar
Então, veio a pausa. Uma impossibilidade de pintar, um silêncio forçado que suspendeu o fluxo criativo e deixou um vazio no ateliê.
O retorno, contudo, não foi um recomeço suave, mas um renascimento marcado pela ruptura. A impossibilidade física e emocional de retomar o pincel ou o bastão inteiro a levou a uma nova forma de interação com o material. A reinvenção exigiu violência poética: o pastel oleoso, antes deslizado, foi fragmentado, quebrado em pedaços com marteladas, um ato catártico que ecoava sua própria fragmentação interna.
Ressurgiu com esses cacos de pigmento nas mãos. A tela de grandes dimensões, outrora palco de garatujas fluidas, tornou-se o receptáculo de uma nova técnica. Não mais o deslizar, mas a fricção e a pressão. Usando esponjas ásperas, começou a esfregar os fragmentos na superfície, empurrando a cor para dentro da trama do tecido.
Resultando uma paisagem pictórica diferente, marcada por linhas tênues e fissuras, onde a cor se deposita de maneira irregular e granulada. Cada obra é um híbrido de memórias — a liberdade das garatujas passadas e a resiliência dos fragmentos presentes. Sua arte agora é a materialização da superação, um testemunho de que, mesmo após a quebra, a matéria e o espírito encontram um novo caminho para a expressão.
O pastel oleoso, em sua essência, transcende o mero material artístico; é um catalisador de expressão bruta e visceral. Ele não se submete à precisão milimétrica de um lápis, mas exige, em troca, uma entrega total ao gesto, ao movimento livre do corpo que pinta.
No processo criativo com pastéis oleosos, a tela de grandes dimensões funciona como um campo de batalha, um espaço vasto onde a cor é depositada não em camadas sutis, mas em pedaços, em fragmentos de pigmento denso e vibrante. A ponta macia do bastão se dissolve sob a pressão da mão, criando texturas.
Cada traço é um gesto livre, um impulso que registra a energia do momento. Não há espaço para hesitação; a beleza reside na imperfeição, nas marcas abruptas e nas sobreposições caóticas. Os movimentos são amplos, varrendo a superfície e permitindo que o acaso e a intuição guiem a composição.
O processo criativo torna-se, então, um ato de reconstrução. Os cacos de pigmento, agora espalhados, são reintroduzidos à tela. O trabalho se torna híbrido, uma mistura de desenho e de pintura. A artista lida com a dualidade do controle e do caos.
As memórias da forma original e dos gestos iniciais são riscadas, sobrepostas. Linhas finas e fissuras expõem as camadas inferiores, a vulnerabilidade do material quebrado. Os movimentos e gestos livres ganham outra dimensão; não mais o deslizar suave do bastão inteiro, mas a fricção, a pressão e a urgência de esfregar os fragmentos contra a tela, como se quisesse fixar a própria passagem do tempo e a brutalidade da transformação.
Nesse campo expandido, a tela de grandes dimensões captura a totalidade da experiência: a forma original e sua ruína, a memória e o presente. É um testemunho visual do fazer artístico, onde a beleza reside na tensão entre o intacto e o quebrado, resultando em uma obra que é, simultaneamente, inteira e fragmentada.
A jornada de sua expressão artística é um diálogo contínuo com mestres da ação e do conceito, um percurso que se desenha na intersecção entre o gesto e o acaso, a memória e a matéria.
REFERÊNCIAS DA ARTISTA.:
“A ressonância inicial encontra-se na intensidade de Jackson Pollock. Dele, absorvi a lição fundamental de que a tela é um campo de batalha, não um espaço de representação passiva. A minha prática ecoa sua dança em torno do suporte, onde o corpo inteiro participa do ato de pintar. As garatujas gigantes de outrora e os movimentos livres de agora são herdeiros diretos do action painting, da urgência de derramar a energia psíquica diretamente na superfície, sem mediação do pincel tradicional.
A transição para a fragmentação e o uso de métodos não convencionais de aplicação deve muito à abordagem radical de William Anastasi. Sua exploração do acaso, do drawing on the move, e a forma como permite que o ambiente e a gravidade cocriem a obra, validaram meu próprio método de martelar e esfregar pigmentos. Anastasi me ensinou a beleza do traço que emerge da força bruta e da imprevisibilidade, a aceitar a fissura e a linha que nascem do processo, e não do controle absoluto.
Finalmente, a poética da memória e a recontextualização do material encontram um porto seguro na obra de Teresa Poester. A forma como ela manipula o pigmento e constrói narrativas visuais que são ao mesmo tempo abstratas e profundamente pessoais, ressoa com minha busca por inserir memórias nas texturas híbridas do pastel oleoso. Poester ilumina o caminho para uma arte que é tátil e reflexiva, onde a matéria guarda a história do gesto, transformando o ateliê em um espaço de rememoração e reinvenção contínua.
Minha arte, portanto, é um híbrido dessas vozes: a intensidade performática de Pollock, o rigor conceitual e a aceitação do acaso de Anastasi, e a sensibilidade tátil e narrativa de Poester, tudo isso filtrado através das minhas próprias memórias de garatujas gigantes e fragmentos de pastel oleoso.”
O resultado é uma obra que pulsa com vida, onde o processo criativo permanece visível na matéria espessa e nas bordas inacabadas dos fragmentos de cor. É a celebração da impermanência e da ação, uma dança de gestos livres que transforma a superfície nua em um universo tátil e emocional.










































































